DORIA VERSUS BOLSONARO: O TEATRO DA GUERRA DA COMUNICAÇÃO

Vigora no ambiente do ativismo conservador uma certa simpatia por teorias conspiratórias. Uma delas dá conta de que o Covid19 teria sido desenvolvido pela China com o objetivo de quebrar a economia ocidental e avançar o domínio do Partido Comunista Chinês (PCCh) sobre o mundo. O que estaria em curso, como consequência disso, seria um experimento social de controle de massas sem precedentes, do qual fariam parte os agentes do globalismo, aliados da China no esforço para governar o mundo por sobre as soberanias nacionais.

Para efeito da análise política, não faz diferença se essa versão do que vemos em curso no mundo tem ou não origem em teorias da conspiração dado que, a consequência prática é a mesma, ou seja, O PCCh está usando a pandemia do Covid19 como arma biológica de uma guerra econômica contra o Ocidente e as forças globalista estão usando esse evento para o maior experimento de controle social e econômico jamais visto na história.

Esse artigo foi escrito no dia 14 de dezembro de 2020, data em que o Colégio Eleitoral confirmou a suposta vitória de Biden sobre Trump nas eleições presidenciais americanas. Eleições essas que, até antes da pandemia, tinham como pauta o excelente desempenho do governo Trump na gestão da economia e geração de empregos e tiveram seu tema central mudado pelo agendamento da pandemia como pauta central da mídia e tema central do pleito.

No mundo inteiro assiste-se uma ofensiva política e midiática progressista em reação à onda conservadora que elegeu os governos da Hungria, da Polônia, dos EUA e do Brasil, e levou ao Brexit na Grã-Bretanha.

No Brasil a pandemia é sistematicamente usada como arma política para derrubar o governo conservador eleito em 2018 com medidas jurídicas e políticas que visam minar o crescimento econômico ascendente do Brasil e barrar as pautas econômicas e de valores defendidas pelo presidente Bolsonaro quando se elegeu. O cerco é jurídico, político, econômico e no terreno da comunicação de massas.

Ninguém mais que o governador de São Paulo, João Doria, um político hiperfocado em seu marketing pessoal, encarnou o uso da pandemia como arma política contra o presidente eleito, a quem pretende derrotar na eleição presidencial de 2022. E esse é o tema desse artigo: uma leitura do teatro da guerra da comunicação que Doria trava contra o presidente Bolsonaro em torno desse tema.

Nesse momento, a questão do fornecimento de vacinas é a batalha da vez na mídia e da guerra que Doria trava contra Bolsonaro, na tentativa de “vender sua imagem” de “portador da cura” e da solução final para a crise de saúde que ameaçaria nossas vidas.

A conjuntura provocada pela pandemia gerou dois fortes sentimentos nas pessoas: por um lado, o medo da morte, por outro o medo de falir ou perder o emprego. Boa parte do segredo do sucesso em estratégias de comunicação política consiste em interpretar corretamente os sentimentos do seu público-alvo e disparar mensagens que se conectem a esses sentimentos, gerando reações e expectativas positivas nos receptores.

Desde o princípio o presidente Bolsonaro escolheu o caminho de minimizar o medo da morte e alertar para as consequências econômicas danosas das quarentenas. Doria, em sentido diametralmente oposto, escolheu posicionar-se como “defensor da saúde em primeiro lugar”, ainda que em detrimento de sacrificar a vida das empresas e os empregos dos cidadãos.

Em comunicação aprende-se que “comunicação não é o que dizemos, mas o que os outros entendem”. Tomando-se como exemplo a expressão “gripezinha” no contexto do pronunciamento em rede nacional do presidente de março de 2020, veremos que Bolsonaro disse, literalmente que: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão.”

Tirada do seu contexto pela mídia e pelos inimigos políticos, a expressão “gripezinha” foi convertida em outro sentido e até hoje é esgrimida contra o presidente para acusá-lo de minimizar o risco de morte das pessoas, versão que na sua interpretação extremada permitiu o jornal Folha de São Paulo dar amplo espaço em suas páginas e mesmo em editorial à acusação de que o presidente seria um genocida.

O exemplo é uma emblemática representação da forma como são travadas as guerras de versões, ou de narrativas, como se convencionaram chamar atualmente as batalhas retóricas visando influenciar a opinião pública na direção desse ou daquele interesse.

A mídia tradicional, em sua maioria, trava há quase um ano já, uma guerra sistemática, regular e contínua com o objetivo de deslegitimar a imagem e a liderança do presidente Bolsonaro, assim como de desqualificar e execrar aos olhos da sociedade os valores e propostas em nome dos quais Bolsonaro foi escolhido presidente na eleição de 2018.

O presidente, por seu turno, enfrenta os inimigos recorrendo aos instrumentos e ao protagonismo que a condição de presidente lhe oferece e conta com a reverberação de seus seguidores nas mídias sociais e apoiadores na sociedade como forma de fazer contraponto aos ataques de que é alvo.

No auge dos conflitos do presidente contra o establishment midiático tradicional, foi auditado o poder de fogo de todos dos produtores de conteúdo que apoiam o presidente nas redes sociais (https://m.blogs.ne10.uol.com.br/jamildo/2020/05/27/stf-e-bolsonaristas-a-dimensao-do-jogo-que-ainda-nao-terminou/), chegando-se a constatação que a artilharia conservadora empatava em poder de fogo com a mídia tradicional.

Essa avaliação é de maio de 2020, anterior, portanto, ao impacto do inquérito ilegal do STF sobre as Fake News, a CPMI das Fake News, e à censura mundial das bigtechs de mídia social contra as forças conservadoras no mundo todo, inclusive o Brasil. Anterior, também, ao abandono pelo presidente da estratégia de confronto com o establishment através das mobilizações de rua, substituída que foi pela aproximação com o centrão e o deslocamento do campo de jogo do governo, das ruas para dentro das instituições.

Temos aqui, então, fatos políticos de grande magnitude e relevância para avaliação do jogo de forças entre o presidente e o establishment político e midiático. Notadamente, a censura nas mídias sociais e a mudança de estratégia do presidente causaram forte impacto sobre o poder de fogo dos conservadores nessa guerra política.

Nesse contexto é imprescindível registrar a reação negativa com a escolha de Kássio Nunes para o STF pelo presidente. A decisão ocorreu em quase absoluta coincidência e contraste com a escolha do presidente Trump, da juíza conservadora Amy Conett Barrett para integrar a Suprema Corte Americana, e caiu como um balde de água gelada sobre as cabeças do ativismo conservador brasileiro, que nutria fortes expectativas de que a escolha de Bolsonaro recaísse sobre um perfil oposto ao escolhido.

Esse conjunto de fatos e circunstâncias constrangeu as condições de jogo dos conservadores, por um lado em função do constrangimento da nova censura das empresas de mídia social e as pressões do STF, e por outro lado pela perda do ânimo guerreiro dos ativistas que, se não criticam abertamente o presidente por suas escolhas, não o defendem mais com a garra que apresentavam nas ruas e nas redes antes desses acontecimentos.

Importante não deixar passar em branco, também, o impacto desmobilizador que as quarentenas e medidas de isolamento social impostas por prefeitos e governadores, com aval do STF, tiveram sobre o poder de mobilização de rua do ativismo, esse certamente mais um importante fator de contenção das forças de apoio ao presidente no conflito com establishment.

Esse conjunto de fatos e circunstâncias somados, constitui-se para induzir qualquer analista político a imaginar que, sob tamanho fogo cerrado, disparado sistematicamente e por quase um ano sem trégua, o presidente Bolsonaro teria sua legitimidade e poder de liderança abalados, e que esse abalo teria, inevitavelmente, que ter sido registrado pelas pesquisas de opinião, instrumento de qualidade duvidosa hoje em dia, mas utilizado pela imprensa e pelos políticos como termômetros do jogo de forças na disputa pela conquista da opinião pública.

Pois o que se constata é exatamente o contrário. A economia brasileira dá sinais de impressionante vigor e capacidade de virada, emitindo sinais da tão esperada recuperação “em V”, e as pesquisas do “insuspeito” Instituto Datafolha publicadas no fim de semana de 12 e 13 de dezembro de 2020, revelam dados impressionantes sobre a resiliência do presidente Bolsonaro para resistir ao conjunto de forças e circunstâncias mobilizadas com o único e exclusivo intuito de apeá-lo do poder.

No dia 12/12/2020, o Datafolha divulgou pesquisa na qual entrevistou por telefone uma amostra representativa de toda a população brasileira com o objetivo de avaliar a percepção da opinião pública sobre a questão das vacinas. Dentre as constatações mais interessantes está a de que a população, supondo-se que a amostra do instituto expressa a realidade, apresenta muito mais resistência à vacina chinesa do que às similares produzidas pelos Estados Unidos, pela Inglaterra ou mesmo pela Rússia.

Segundo o Datafolha, metade dos entrevistados responderam ao questionário afirmando que não tomariam o produto produzido pelo laboratório chinês Sinovac, que no Brasil tem convênio de fabricação com o Instituto Butantan, por iniciativa do governador de São Paulo João Dória.

A pesquisa revela que a vacina chinesa tem mais aceitação entre pessoas com maior nível de renda, segmento no qual 72% dos que recebem mais de 10 salários-mínimos, admitiram tomar o imunizante. O nível de escolaridade também afeta a percepção dos entrevistados, com 65% dos que têm ensino superior respondendo que tomariam o produto chinês. No entanto, mesmo nesses dois segmentos da amostra, constatou-se maior receptividade a uma vacina americana (86%), inglesa (85%) ou russa (71%), diz o Datafolha.

Segundo a Folha de São Paulo, foi essa constatação que levou Doria a tentar rebatizar a vacina chinesa, que o governador usa como cavalo de batalha para desgastar o presidente Bolsonaro em torno desse tema, de “vacina do Brasil” ou “vacina do Butantan”.

Hiperfocado em seu marketing pessoal, Doria politizou, desde o início, a questão do combate à pandemia do Covid19. A questão da vacinação é o tema da vez e essa desconfiança da vacina chinesa na guerra pela conquista da opinião pública levou o Instituto Butantan a desenvolver uma campanha publicitária nas redes sociais para tentar reverter essa percepção. O slogan da campanha é: “Se a vacina é do Butantan, pode confiar.”

A pesquisa do Datafolha constatou, também, que cresceu a parcela da população que não pretende se vacinar. Segundo a pesquisa, 22% dos entrevistados responderam que não pretendem se vacinar e outros 5% responderam ainda não saber, contra 73% que responderam que pretendem recorrer à vacina. Na pesquisa análoga que o Datafolha fez em agosto passado, 9% dos entrevistados responderam que não pretendiam se vacinar, contra 89% que responderam que se vacinariam.

Mais do que os números em si, o que a comparação entre as duas pesquisas do Datafolha demonstra é a opinião pública se movimentando em resposta à guerra de argumentos travada na sociedade e nas mídias sociais entre Doria e os apoiadores do presidente Bolsonaro. A descoberta deve ter tirado o sono do governador de São Paulo e de sua equipe de marketing.

No dia 13/12/2020, o Datafolha divulgou mais dados do seu levantamento revelando que 52% dos entrevistados acham que o presidente Bolsonaro não é culpado pelas mortes por covid-19.

Uma parcela menor, de 38% dos entrevistados, afirma achar que o presidente é um dos culpados, mas não o principal. E apenas 8% responderam que Bolsonaro seria o principal culpado pelas mortes.

O levantamento do Datafolha confirmou, também, outras pesquisas que revelam bons índices de aprovação do presidente. Bolsonaro preserva aprovação geral (índice de ótimo e bom) de 37%; entre empresários a aprovação é de 56%; entre os moradores do Centro Oeste e da região Norte 47%; entre assalariados sem registro 46%; entre os que ganham entre 5 a 10 salários-mínimos 41% e entre os homens 42%.

Pesquisas eleitorais que projetam rankings para 2022 apresentam Bolsonaro liderando com folga o primeiro turno em todos os cenários simulados e em boas condições de derrotar seus principais adversários no segundo turno.

Impressionante.

(Artigo originalmente publicado na Revista Terça Livre em dezembro de 2020, bem antes, portanto, da mudança em curso nos indicadores da economia e nas pesquisas de opinião, do fim o auxílio emergencial, da vitória de Bolsonaro na eleição para o comando do Congresso e da derrota de Doria dentro do PSDB em sua tentativa de presidir a legenda, todos esses fatos que merecem uma atualização analítica.)

Paulo Moura
Paulo Moura
dextrajornalismo@gmail.com
Sem Comentários

Postar Um Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.