ELEIÇÃO 2020: A DIREITA TOMOU UMA SURRA. E AGORA?

O presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa no ministério da economia

Duas linhas de avaliação do resultado circulam nos ambientes da direita após a derrota acachapante que sofremos. Por um lado, estão os que depositam o resultado na conta de uma eventual fraude que não temos condições nem força para comprovar. Por outro, estão líderes como Filipe Martins e Douglas Garcia, que propõem uma avaliação autocrítica tendo como base nossos próprios erros. Prefiro seguir o segundo caminho.

O primeiro requisito para a eficácia da ação política é o diagnóstico correto da realidade. Botar a culpa no inimigo ou numa eventual fraude não é um bom caminho para interpretar o resultado de uma eleição na qual o inimigo venceu. Muito menos para planejar nossos passos futuros.

Para efeito da análise que farei aqui, vou desprezar a hipótese de fraude, porque, se houve fraude, nenhuma análise se faz necessária, nenhuma autocrítica e reconhecimento de erro se justifica. Talvez eu vire vítima de ataques da direita pelo que vou dizer, mas nunca me furtei em assumir o risco de ter posição e não temo o comportamento da espiral do silêncio que cala a autocrítica e semeia o terreno para novas derrotas.

A verdade precisa ser dita e assumida com todas as letras: a nova direita, nascida nos movimentos de rua do impeachment da Dilma e da eleição de Bolsonaro, tomou uma surra nas urnas. O presidente Bolsonaro é o grande derrotado.

A esquerda venceu com a cara do PSOL. O PT se encaminha para a irrelevância, mas a cara da esquerda agora é o PSOL, que botou Boulos no segundo turno em SP, cresceu em vereadores e teve excelente desempenho em todo o país. E o centrão venceu com a cara da ida de Covas segundo turno em SP, e o crescimento de partidos como o DEM, o PSD e o PP. O MDB encolheu em número de prefeituras, mas segue sendo o partido que governa mais municípios. O PSDB também encolheu, mas preserva sua força em SP e se encaminha para a reeleição. Os candidatos apoiados pelo presidente Bolsonaro, ao contrário, fracassaram em sua maioria.

O ambiente político que permitiu a ascensão da nova direita e a vitória de Bolsonaro não existe mais. A grande mudança a ser compreendida aqui é o desgaste de imagem do presidente Bolsonaro, decorrente do exercício do poder e das decisões e escolhas dele.

Um dos elementos centrais do posicionamento do então candidato Bolsonaro foi o atributo de candidato antissistema (ou antipolítica). Esse ativo não existe mais devido à inevitável aliança com o centrão e a uma série de escolhas daí decorrentes que o presidente fez antes e depois de formalizar a entrada dos políticos tradicionais no governo.

A última e mais gritante delas foi a escolha para o STF, que impactou a base do presidente como uma grande decepção, reforçada pelo primeiro voto do escolhido, proferido em um minuto de justificativa, contra uma decisão do juiz Bretas num processo da lava jato do Rio de Janeiro.

As pesquisas, que esse segmento lacrador adora execrar e ignorar, apontam altos índices de rejeição do presidente em pelo menos dez capitais. Não estou dizendo que pesquisas publicadas não sejam usadas para manipular a opinião pública. Isso é fato estudado pela Ciência Política e pela Teoria da Comunicação. Daí a imaginar que as pesquisas têm nexo zero com a realidade vai uma enorme distância. Desprezar pesquisas e deixar de tentar interpretá-las é erro primário.

Há um segmento da base bolsonarista que apoia o presidente seja qual for sua decisão. Não é desse segmento que falo quando me refiro ao sentimento de decepção. A imensa maioria dos eleitores que votaram no presidente Bolsonaro se compõe de gente conservadora nos hábitos e costumes, que cultiva um sentimento anticorrupção e se relaciona com a política como algo relativamente distante de suas vidas cotidianas.

Essas pessoas são politizadas no sentido de que acompanham a política, e passaram a acompanhar o debate público mais atentamente ante a ameaça que os governos petistas impuseram à nossa liberdade e aos nossos valores.

O cientista político Robert Dahl desenvolveu uma tipologia do homem político, a partir do grau de envolvimento das pessoas com o jogo do poder. No diagrama de Dahl que reproduzo a seguir, esse tipo de cidadão a que me refiro, integra o estrato político, ou seja, não se trata de pessoas que exercem o poder, nem de pessoas que almejam o exercício do poder, trata-se de um estrato de cidadãos que tem interesse e um razoável grau de informação sobre a política, sem, no entanto, ter participação ativa muito além de buscar informações e votar. Mas é exatamente esse segmento que forma as maiorias quando adere e apoia lideranças e partidos, ou que lhes tira votos e apoio quando esses líderes e partidos deixam de corresponder às suas expectativas

 

Esse segmento apoiou a eleição de Bolsonaro comprando o argumento de que o presidente eleito iria romper com o sistema, acabar com a corrupção e criar as condições para livrar o país daquele ambiente criado pela aliança do petismo com o centrão, cuja feição mais explícita foi o escândalo do Petrolão.

O presidente se comprometeu com privatizações e com uma agenda liberal na economia e conservadora nos costumes. Nenhuma das duas agendas avança, em especial a agenda conservadora, praticamente sem resultados desde o início do governo. A agenda das reformas liberais empacou depois da aprovação da Reforma da Previdência e da aprovação da Lei da Liberdade Econômica, mesmo com a aliança com o centrão, supostamente feita para destravar essas pautas.

Ao contrário do segmento de ativistas de rede social, que almeja o poder e tem atitudes mais “agressivas” (no sentido de intensas), em relação à defesa do presidente e do governo, as pessoas desse estrato têm vínculos e atitudes mais light em relação ao presidente e ao governo. Devido à natureza da sua relação com a política, essas pessoas não atacam o presidente e o governo que ajudaram a eleger. Simplesmente, perdem o entusiasmo, se afastam, não defendem Bolsonaro dos ataques e críticas que veem acontecer em seus círculos de convivência e nas mídias sociais. Devido a esse comportamento discreto, e ao fato de que a crítica ao governo ou ao presidente costuma ser rechaçada como traição ou submissão à agenda do inimigo por parte do segmento lacrador, a perda de sustentação do presidente junto a esse segmento passa despercebida, até aparecer nas urnas como choque de realidade.

O diagrama abaixo é de minha autoria e ilustra uma adaptação do esquema de Dahl à interpretação dos diferentes estratos de cidadãos envolvidos com a política na era das mídias digitais. Traduzindo em outras palavras a análise que descrevi acima, o que acredito que está acontecendo é que os círculos de cor verde (líderes e produtores de conteúdos) e amarelo (multiplicadores de conteúdos), perderam eficácia na comunicação com os cidadãos que integram os círculos azul e branco. E essa perda se deve, em grande parte ao desgaste de imagem do presidente a que me referi antes, mas também, às atitudes lacradoras e inconsistentes dessa safra de ativistas digitais que se movem pautados pela busca inconsistente de seguidores e curtidas em seus perfis e canais monetizados.

O presidente Bolsonaro passou quatro anos ou mais viajando pelo país e criando uma legião de seguidores com os quais teve contato físico real. Enquanto assim fazia, trouxe essas pessoas para dentro das suas mídias digitais e executou uma competente estratégia de marketing para se eleger usando essa base orgânica como equivalente funcional a um partido político. No entanto, esse tipo de vínculo entre líderes e liderados não tem a espinha dorsal que tem um partido como organização que confere força, continuidade e consistência à ação política no tempo.

O ativismo lacrador que cresceu nas mídias digitais no contexto e no ambiente da ascensão de Bolsonaro, relaciona-se com seu público como qualquer celebridade de rede social; sem vínculos concretos com cidadãos de carne e osso, sem organização, sem projetos estruturados de poder, sem um partido político, e sem a consistência que somente anos de estudo conferem às mentes inteligentes, o resultado está aí, nas urnas.

A conquista e a preservação do poder requerem competência, inteligência e organização. Esses são atributos escassos ou inexistentes nessa geração de lacradores de mídia social que emergiu na carona da ascensão de Bolsonaro ao poder. Esse pessoal não é capaz de gerar um partido organizado, se canibaliza em guerras da vaidade às vistas de todos, sabota aliados e difunde, sem escrúpulos, mentiras para inviabilizar a eleição de candidatos do mesmo campo político, todos sem votos, pelo que se viu com a abertura das urnas. E, é preciso dizer, o presidente Bolsonaro tem sua parcela de responsabilidade nisso tudo. Basta ver a forma errática como lida com a questão do partido.

Dito isso, é preciso admitir com todas as letras: a derrota da direita nessa eleição é obra da própria direita. Não sei se houve fraude eleitoral e, se houve, ninguém conseguirá provar, muito menos o voto impresso será implantado, simplesmente porque a direita não demostrou competência e força política para fazer isso acontecer.

E, convenhamos, o que as caras do Levy Fidelix e do Russomanno têm a ver com a nova direita?

Impossível engajar a base conservadora raiz para botar a cara nas ruas e nas redes com esses estandartes na vitrine.

A esquerda e o centrão, ao contrário, souberam recuar no primeiro ano de mandato de Bolsonaro, analisaram as razões das suas derrotas em 2018, se reagruparam, perceberam nossas fragilidades, definiram uma estratégia e colhem os resultados.

A cavaleiro desses resultados, PSDB, DEM e MDB passam a operar para manter o controle da mesa da Câmara dos Deputados e manter a agenda econômica do governo travada para quebrar o país e jogar a culpa no presidente. Anotem aí.

O PSOL, que é o PT que ainda não teve chance de roubar, é a nova cara da esquerda urbana, “intelectual” e de classe média que era exatamente a base do petismo nos anos 1980. A semeadura para tentar repetir a estratégia que levou o PT ao governo por quatro mandatos presidenciais está em pleno curso. A prosseguir o andar da carruagem, se a direita raiz não tomar jeito, vai ter que engolir esse caroço de abacate daqui uns anos.

Se a direita lacradora achava que detinha o monopólio do conhecimento sobre a fórmula de marketing digital que elegeu Bolsonaro, esse é mais um dos seus erros.

A esquerda estudou as campanhas do Trump e do Bolsonaro, aprendeu a fazer e colocou a estratégia em prática nas campanhas do PSOL em todo o país. O motor do sucesso de Boulos em SP e dos muitos vereadores que o PSOL elegeu é resultado da combinação dessa tecnologia, com alto poder de engajamento na classe média e na juventude (aqui mora o perigo), tudo isso financiado pelo fundo partidário (no mínimo).

Outro detalhe: convém à direita analisar a campanha do Arthur do Val em SP. O MBL domina a tecnologia do marketing digital e seu candidato engajou a juventude de classe média com o discurso de candidato antissistema. Com dificuldade de deglutir Russomanno, boa parte daquele segmento da direita a que me referi anteriormente, votou no Arthur, não obstante à imagem ruim que o MBL tem junto às lideranças da lacração digital. Não nutro nenhuma simpatia pelo MBL, pelo contrário. Mas, em política, mede-se acerto e erro pelos resultados. Para desespero do Kim Kataguire, Arthur deve concorrer a deputado federal em 2022.

Finalizo dizendo que uma derrota nacional numa eleição municipal em 2020 não significa derrota certa na eleição geral de 2022. FHC perdeu as eleições de 1996 e se reelegeu em 1998. Lula perdeu a eleição de 2004 e se reelegeu em 2006.

Não obstante os bons resultados que colheu nas urnas, considerando PSOL, PDT e PSB, nada indica que esses partidos e mais o PT terão um único candidato em 2022. Isso também vale para o centrão, que opera unido na oposição a Bolsonaro, mas não formou consenso para lançar um único candidato em 2022. A regra do sistema estimula fragmentação e colhe fragmentação, à esquerda, ao centro e à direita.

A direita raiz segue sem opção melhor que Bolsonaro para 2022. O presidente detém o poder do cargo e suas instrumentalidades, ainda que travado pela ação do centrão no Congresso. Convém a Bolsonaro botar os neurônios a funcionar.

Sem diagnóstico correto não se acha o remédio e a cura. É hora da entender a natureza dos nossos erros, recuar, reorganizar, planejar e, somente então, partir para a ação depois de feita a lição da casa. Deixar tudo como está para ver como é que fica é o caminho certo para novas derrotas.

Por Paulo G. M. de Moura – Cientista Político

Paulo Moura
Paulo Moura
dextrajornalismo@gmail.com
8 Comentários
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    Carteodolino
    Postado em 21:57h, 19 novembro Responder

    Na verdade no Brasil ainda não estar consolidado nenhum partido que o povo a grande massa se identifique como de direita ..
    E também mostrou que a esquerda continua articulada com votos da sua militância ficando em um ou dois candidatos para não fragmentar os votos , diferente do que os ditos de direta fizeram , não tiveram articulação para ficar em um ou dois candidatos e muitos menos militância para isso, então os votos foram muito divididos fazendo com que não atingisse o número necessário para eleger .

  • Pingback:ELEIÇÕES 2020 – PRIMEIRO TURNO – REFLEXÕES DE UM CONSERVADOR LIBERAL – Blog Transporte Libertário
    Postado em 19:36h, 17 novembro Responder

    […] ELEIÇÃO 2020: A DIREITA TOMOU UMA SURRA. E AGORA? […]

  • Avatar
    Denis Cardoso
    Postado em 13:11h, 17 novembro Responder

    Eleição com urnas bolivarianas….o sistema reage, quanta fraude!

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    Sergio Luiz Martins da Rocha
    Postado em 11:47h, 17 novembro Responder

    Minha impressão é que mais uma vez os resultados das eleições 2020 foram manipulados. Para mim, 2020 disse tudo com todas as letras!
    Pelo andar da carruagem, em 2022, o TSE decidirá quem será o novo presidente e quem serão os novos governadores, os novos senadores e deputados federais. O ato de votar será meramente simbólico, apenas para justificar uma retórica falsa de que no Brasil se vive uma democracia e o que o sistema de apuração é confiável, segundo o tribunal Superior Eleitoral. O TSE pensa, futuramente, implantar o sistema de votação pelo celular, isso é só um biombo. Não importa qual seja o processo de votação, o sistema de apuração, cada vez mais sofisticado e inauditável por decisão do TSE, permitirá que se escolham os candidatos que eles quiserem. Tenho sérias dúvidas, se nas eleições deste ano eles já não aplicaram esta prática..

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    LUIZ PAULO CORRÊA VALLANDRO
    Postado em 04:42h, 17 novembro Responder

    Excelente análise, professor.

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    Paulo
    Postado em 20:38h, 16 novembro Responder

    Ainda bem queno Trump não pensa.como vocês. As fraudea só são expostas quando são reconhecidas.

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    Zoila brum
    Postado em 18:56h, 16 novembro Responder

    Paulo concordo contigo ponto por ponto, mesmo que a gente mostrasse para,Bolsonaro o que podetia acontecer ele não nos ouviria, essa é a verdade. Tomara que alguem mostre pra ele. Paulo envia pra alguém do relacionamento dele esta tua análise. Pra min certíssima.

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    GUSTAVO ANDRADE ROCHA
    Postado em 17:52h, 16 novembro Responder

    Paulo, sou seu seguidor e leio tudo que você escreve. Você é sempre brilhante.

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