A MANUFATURA DAS NOTÍCIAS DISTORCE OS FATOS (parte 2 da série)

Esse é o segundo artigo da série de três que  escrevi para a Revista Terça Livre analisando o experimento social da pandemia sob a ótica da Teoria da Comunicação, mais precisamente sob enfoque de três hipóteses contemporâneas que, sob diferentes aspectos, analisam a maneira como se manipula a opinião pública através da comunicação e da política.

No artigo de hoje o assunto será tradado sob a ótica da Newsmaking, ou fabricação (manufatura) das notícias, que analisa a forma como as redações dos veículos de mídia se converteram em “linhas de montagem” que descontextualizam a informação para depois recontextualizá-las num processo que distorce a realidade, convertendo a notícia num simulacro.

No próximo artigo abordarei o assunto sob a ótica da Espiral do Silêncio, enfoque teórico que se constitui em verdadeira sociologia do comportamento humano na sua relação entre líderes e liderados ou influenciadores e influenciados, se quisermos adorar uma linguagem mais contemporânea. Nesse jogo entram os “formadores de opinião” da mídia, mas também, os líderes naturais existentes em quaisquer grupos sociais.

Para compreender-se a transformação que se processou na forma como funcionavam os veículos de comunicação antes dessa mudança e como funcionam agora, é preciso recorrer à imagem dos repórteres policiais de meados do século XX, naquelas imagens dos filmes em preto e branco, que retratavam o jornalista como um investigador que ia a campo com sua gigantesca câmera fotográfica e aquele enorme flash, tinha suas fontes nos meios policiais e do crime, desenvolvia sua própria investigação e depois voltava para a sede do jornal para redigir a notícia em sua máquina de datilografar, em tom e estilo quase literários, descrevendo os fatos como uma crônica.

Outra imagem nem tão romântica da profissão é a dos correspondentes de guerra que iam à frente de batalha munidos de câmeras fotográficas ou câmeras de cinema 16 mm relatar o que viam no campo de batalha com seus próprios olhos, pontos de vista e risco de vida. Esse tipo de jornalista acabou; é espécie extinta sem que tenha sido derramada uma só lágrima dos defensores das “espécies em extinção”.

O jornalista de hoje é apenas a peça de um mecanismo sofisticado de recepção de informações e versões prontas, captadas pela internet ou pelo telefone celular, que trabalha com a bunda na cadeira, quando muito reescrevendo as versões de supostos “fatos” que a ele chegam através de fontes interessadas, assessorias de imprensa e agências de notícias.

Não obstante essa figura chamada hoje de jornalista dar a primeira re-redação à “informação” capturada, nem mesmo esse primeiro texto, que em geral pode e é redigido por um estagiário mal remunerado, é o texto que de fato será publicado. Esse simulacro será processado por uma verdadeira “linha de montagem” que irá desfigurar a versão “original” e submetê-la a um processo de copidesque e edição com várias etapas até que esse fragmento descontextualizado seja convertido em notícia, ou não.

A distorção que se processa nessa linha de produção envolve relação entre jornalistas e fontes, os gatekeepings (portais de captura de informações dos veículos), bem como as rotinas internas à cozinha das redações onde a informação (matéria prima) é manufaturada desde antes de ingressar na “esteira” mecânica até a publicação.

Quem decide o que será noticiado e o que será descartado entre as inúmeras, talvez milhares, de informações capturadas pelo gatekeepings?

Existem normas e critérios para definir o que é ou não noticiável?

O sistema de filtros das “fábricas de notícias” envolve a hierarquia das redações e editorias e os manuais de redação de cada veículo, muito parecidos uns com os outros embora comportem especificidades.

O que as pesquisas sobre o assunto revelaram é que existe um “ecossistema” e uma “atmosfera” que influenciam por vias formais e informais a definição do que será noticiado e do que será omitido do receptor.

O mapa de influência sobre as decisões editoriais inclui a hierarquia de autoridade da personalidade pública que será objeto da notícia, por exemplo. Se por um lado autoridades públicas são objetos de alto interesse do mercado receptor, por outro lado, esse universo dos noticiáveis é integrado por gente com poder. Aqui, quando falamos de poder, falamos de gente que têm instrumentos para a prática de sanção política ou econômica ao profissional ou ao veículo; e isso faz parte da equação decisória sobre publicar ou não publicar a notícia.

Pesa também nas decisões editoriais a hierarquia interna das redações e a relação do repórter com seus superiores. Há mecanismos de sansão e recompensa dentro de empresas jornalísticas, como em qualquer empresa. A ambição do profissional influencia sua objetividade e, dependendo do caráter do indivíduo, pode ser também um fator a operar como filtro de distorção.

Outro fator relevante a considerar como filtro de distorção é o das “panelinhas de profissionais”. Como em todo ambiente de trabalho ou segmento de mercado, os jornalistas também têm seus grupinhos, que podem ser integrados por colegas de emprego ou mesmo envolver profissionais de outros veículos.

Nesses ambientes trocam-se informações, comentários e impressões sobre o objeto do trabalho, isto é, as notícias que se publicam ou que se omitem. O viés de interpretação que predominará também pode ser influenciado nesses ambientes. Nesses círculos de relacionamento profissional, novatos tendem a copiar veteranos, podendo introduzir “vícios” influenciadores de critérios de decisão e viés.

A ausência de competição por pertencimento a grupos com viés diferente do mainstream, que no jornalismo é de esquerda, também tem seu peso. Pessoas sem espírito de liderança temem a exclusão de círculos sociais de convivência e tendem a adaptar suas atitudes e posições às posições dominantes nos grupos de pertencimento, conformando um espiral do silêncio sob pressão das posições de esquerda da maioria dos jornalistas.

Todas essas condicionantes podem ser atropeladas pelo acesso a uma notícia bombástica, de alto “valor” e capacidade de ganhar manchetes de destaque e alavancar uma carreira profissional, estimulando o profissional e o veículo a quererem publicar. A regra, no entanto, é à submissão aos condicionantes antes descritos.

Cultura profissional, rotinas de produção, relações entre jornalistas e fontes, portanto, são fatores de distorção dos fatos, no contexto da descontextualização e recontextualização que caracteriza a função de transmitir ao receptor a informação que é a matéria prima da notícia, e que deveria ser um processo pautado pela busca da objetividade, mas como se vê, não é.

Outro fator condicionante é a dimensão de entretenimento que contaminou o jornalismo, num contexto em que a publicidade paga proporcionalmente ao tamanho da audiência invade o noticiário com aquilo que se pode chamar de “jornalanda”, que caracteriza a propaganda camuflada como notícia.

Nesse contexto, não se pode deixar de registrar que a atenção do espectador é sempre mais mobilizada para a notícia ruim do que para a notícia boa. Todo noticiário ou veículo impresso trabalha com peso e equilíbrio temático de cada edição. À notícia ruim, portanto, corresponderá um contrapeso, jamais na proporção. A título de exemplo, um telejornal pode ocupar 90% do seu tempo com um notícia ruim, mas impactante – a pandemia do Covid19 -, e no seu bloco final encerrar com a notícia do nascimento de mais um filhote de ursinho panda no zoológico de Shangai, a título de amenizar a tortura dos outros blocos do noticiário.

O tamanho/espaço disponível em cada edição, assim como a necessidade de equilibrar tipos diferentes de notícias, também são fatores condicionantes de distorção. Pressão de prazos e qualidade da matéria prima (imagem/som), da mesma forma, interferem na decisão de publicar ou não. Cada veículo trabalha com seus critérios e exigências de qualidade. Um fato relevante cuja qualidade de imagem/som podem não satisfazer esses critérios pode resultar na omissão de uma notícia que, sob o ponto de vista jornalístico, seria do interesse do mercado receptor.

A frequência de acesso às fontes também é um fator a influenciar a noticiabilidade, dada a importância de explorar o ciclo da notícia com a exploração de dimensões novas do fato, com vistas a manter vivos o interesse e a atenção da audiência. A limitação de acesso à fonte, portanto, é outro condicionante capaz de influenciar na publicação ou não de uma informação, ainda que a mesma seja relevante do ponto de vista do receptor.

A exclusividade do furo e a expectativa de publicação por veículos concorrentes é outro fator a influenciar a noticiabilidade.

Dito isso, basta o leitor fazer um exercício de raciocínio simples ao alimentar a boca da linha de montagem de uma agência de notícias internacional com a informação sobre o surgimento de um novo e perigoso vírus no mercado popular de uma cidade da China e acompanhar o que acontece ao longo da esteira mecânica nos doze meses seguintes, tendo em consideração o que agora já sabe, depois de ler sobre Agenda Setting e Newsmaking.

A notícia, submetida às rotinas de produção a às circunstâncias condicionantes tal como aqui descritas, alimenta as pautas que tendem a se tornar agenda midiática e, consequentemente, a agenda do receptor e pauta do debate social.

Como se vê, nem todo o problema recai sobre a responsabilidade do viés esquerdista da maioria dos jornalistas. O viés predominantemente de esquerda dos colegas, apenas agrava as distorções. O problema tem uma dimensão maior e requereria uma reformulação dos veículos de mídia, o que não parece estar no horizonte dos tomadores de decisões nesse mercado viciado.

Clique aqui para ler o primeiro artigo da série:  PANDEMIA E MANIPULAÇÃO DE MASSAS: COMO E PORQUE FOI POSSÍVEL

Paulo Moura
Paulo Moura
dextrajornalismo@gmail.com
1 Comentário
  • Avatar
    James Dressler
    Postado em 21:00h, 31 janeiro Responder

    O que mais se vê hoje em dia é a manipulação da informação, selecionando notícias que corroborem a narrativa adotada, até mesmo tendo o apoio de grupos organizados “parceiros” que criem tais narrativas, que depois são apenas amplificadas, marteladas até que todos acreditem nelas. Em outras vezes, agem ocultando notícias que desmintam a mesma narrativa, ou fazem recorte de partes de notícias, omitindo aquelas partes que possam colocar em dúvida ou contestar a narrativa que se quer impor, divulgando apenas aquelas que a reforcem.

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