A POLÊMICA SOBRE O “SILENCE DAY”: QUAL É O PONTO FRACO DAS BIG TECHS DE MÍDIA SOCIAL?

O contexto

A proposta de um dia de silêncio nas redes sociais em protesto contra a censura praticada pelas Big Techs de mídia digital causou enorme repercussão e polêmica nos grupos conservadores da internet. Os proponentes do protesto lançaram a proposta após o cancelamento do presidente Donald Trump (e de milhares de conservadores pelo mundo) pelas empresas de mídia social e após o anúncio pelo Facebook de sua nova política de privacidade de dados, que definiu o dia 8 de fevereiro próximo como data limite para os usuários do Whatsapp se submeterem à decisão de Mark Zuckerberg de unificar o compartilhamento de dados do seu app de mensagens com sua mídia social. Os usuários que não aceitassem se submeter à decisão do Facebook teriam seu Whatsapp inativado. Somou-se a esses fatores o banimento do Parler da nuvem da Amazon e das lojas de app do Google e da Apple, e consequentemente da internet. Esses três fatos provocaram a migração em massa de milhões de usuários do Whatsapp para o Telegram e o Signal, aplicativos de mensagens concorrentes, e a proposta do Silence Day era surfar a onda da migração para espalhar as perdas financeiras para as outras corporações de mídia social além do Facebook, que é dono do Whatsapp e do Instagram, também.

Ocorre que, no Brasil, o Silence Day coincidiu com a nova ofensiva da mídia tradicional e da oposição política contra o governo Bolsonaro, valendo-se da crise da saúde em Manaus. A crise na capital do Amazonas tomou conta do noticiário reconstituindo a ofensiva terrorista da mídia que ao longo de 2020, bateu sistematicamente no governo para tentar botar a opinião pública contra o presidente e criar ambiente para um processo de impeachment.

O roteiro da ação oposicionista é o seguinte: 1) a mídia e o governador Doria, de São paulo, batem insistentemente no governo e no presidente para condicionar a opinião pública; 2) a esquerda aciona o STF para tomar decisões jurídicas e impor limites ou exigências de ação do governo que, se não cumpridas, justificariam um impeachment; 3) Rodrigo Maia tenta pautar a abertura de um processo de impeachment na Câmara dos Deputados.

A nova ofensiva coincide com o fim do auxílio emergencial e das medidas de socorro às empresas vítimas das quarentenas da pandemia, que causaram uma queda nos índices de aprovação do governo nas pesquisas. Nesse contexto, os inimigos do presidente repetem o fracassado roteiro de 2020, na expectativa de que dessa vez consigam seu intento.

Detalhe:

O desespero deles tem origem na possibilidade de que o presidente Bolsonaro consiga eleger aliados para as presidências da Câmara e do Senado, hipótese que se confirmada, enfraquece o poder da oposição para lograr seu intento de dar um golpe de estado fabricando artificialmente um impeachment que não se justifica.

Ao perceberem a subida da hashtag propondo o impeachment de Bolsonaro, segmentos da base de apoio conservadora do presidente nas mídias sociais passaram a criticar o Silence Day e a propor a saída do silêncio para dar resposta à oposição na guerra de hashtags do dia. O argumento dos críticos ao dia de silêncio nas redes era o de que isso era exatamente o que o inimigo queria: que a direita saísse das redes deixando a esquerda sozinha para influenciar a opinião pública.

As Big Techs são neutras na guerra dos conservadores contra a esquerda?

O argumento é válido, mas apenas parcialmente. Para aceitá-lo como totalmente válido seria necessário concordar com o argumento de que as corporações de mídia social são neutras nesse conflito dos conservadores com a esquerda em todo o mundo e que temos total liberdade de opinião nos ambientes virtuais que elas fornecem, e que, portanto, não é necessário combatê-las e nem listá-las no rol dos inimigos.

Se o leitor, como eu, entende que essas corporações globalistas jogam no time inimigo, haverá de concordar que algo é necessário fazer contra elas para garantir nossa liberdade de opinião. E se é necessário contra-atacar, o ponto fraco do inimigo é o bolso.

O ponto fraco das Big Techs

O Vale do Silício, onde se encontram essas corporações, é habitado por notórios esquerdistas formados pelas universidades americanas que, nas décadas anteriores, foram dominados pela ideologia da Escola de Frankfurt e suas teorias críticas da indústria cultural. E não são apenas os funcionários dessas empresas que são esquerdistas, seus donos também passaram pelas mesmas universidades ou estão contaminados pelo ambiente que os cerca.

As Big Techs de mídia social, portanto, já vinham criando seus departamentos de controle de conteúdo em função da pressão da mídia tradicional e do establishment político, que temem as perdas de seu comando e de seu faturamento para as novas mídias digitais e para o deslocamento de poder que a internet possibilitou das organizações tradicionais para as mãos dos indivíduos.

Não obstante, foi em 2020, ano em que se projetava a reeleição do presidente Trump nos EUA, que as grandes corporações empresariais globalistas, que também são as maiores anunciantes em publicidade do mundo, partiram para cima das Big Techs de mídia social, cortando ou ameaçando cortar as milionárias verbas de publicidade que lhes eram destinadas, caso nada fizessem para endurecer o controle de conteúdos em seus ambientes virtuais, sob o pretexto de combater “discursos de ódio” e disseminação de Fake News.

Qual foi, portanto, o fator decisivo que fez as Big Techs se renderem aos seus anunciantes? O ataque aos seus bolsos.

Ocorre que essas empresas têm outra vulnerabilidade que ameaça seus faturamentos: você usuário.

No ambiente profissional do marketing digital há uma frase, cujo autor desconheço, que diz: “quando tudo é de graça o produto é você”.

Internautas desinformados se acostumaram a pensar que tudo na rede é de graça e fogem como podem de pagar pelo que consomem, quando podem. Doce e cara ilusão.

A verdadeira fonte de riqueza dessas Big Techs de mídia social está nos dados que você entrega voluntariamente a elas quando adere (sem ler) aos termos se uso escritos em textões de letras minúsculas – sim, eles também sabem que você tem preguiça de ler – ou mesmo quando navega em seus ambientes virtuais pesquisando informações ou se divertindo com conteúdos aparentemente banais (como os que você mesmo posta nas redes sociais), disponibilizados por produtores de todo tipo.

Em tudo que você posta, clica ou acessa na internet há informações sobre você em dados que são coletados por algoritmos de inteligência artificial, que integram os sistemas operacionais do seu smartfone, das mídias sociais que você frequenta, dos sites de busca que você usa, ou da imensa maioria dos sites nos quais você navega, os quais possuem cookies embutidos para esse fim, e que você sempre autoriza a sugarem seus dados enquanto você lê notícias, faz compras, assiste vídeos besteirol de subcelebridades. Essa vampirização dos seus dados ocorre inclusive quando as telas dos portais ou apps em que você navega estão minimizadas ou que seu celular está com a tela de descanso e sem uso se você não o desligar ou não fizer logout nas mídias que você acessa.

Sonhando com a suposta maravilha de uma ilusória gratuidade, você está transferindo bilhões de centavos de dólares em dados para os bolsos dos “marks zuckerbergs” (esse marks ficou interessante hein?) da vida, que formaram o cartel das cinco maiores empresas de tecnologia do mundo.

E é justamente aí que reside a sua força e o maior ponto fraco dessas megaempresas: a sua negativa de entregar seus dados a elas. Mas esse poder só terá força se a negativa de entregar dados for resultado da ação coletiva simultânea de milhões de usuários. O problema é que para isso acontecer se fazem necessárias ações provocadas por fatores externos ou que não estão, necessariamente, ao alcance de usuários individuais, a menos que esses usuários se constituam numa força de ação organizada e que opere como um enxame de abelhas atacando quem ameaça a colmeia.

A primeira ameaça ao faturamento das Big Techs de mídias social foi provocada pelos grandes anunciantes em 2020. A segunda está acontecendo nesse momento e foi provocada pela coincidência de três fatos simultâneos: a censura ao presidente dos EUA, a exclusão da rede social Parler da nuvem da Amazon e de seu aplicativo de acesso da Google Play e da Apple Store, e a divulgação da nova política de privacidade de dados do Whatsapp pelo Facebook.

Esses fatos combinados, provocaram danos à imagem e, portanto, ao valor de mercado e das ações dessas marcas em bolsa, e uma onda de migração em massa de usuários dos serviços dessas Big Techs para aplicativos de mensagens e mídias digitais alternativos.

Segundo informações de Franklin Melo, especialista em TI, gestão de datacenters, segurança da dados, publicadas dia 11/01 em seu site, “os papéis do Twitter fecharam em queda de 6,4%, a US$ 48,19; o Facebook caiu 4,01%, a US$ 256,84; a Alphabet, dona do Google, recuou 2,24%, a US$ 1.766,72; a Amazon fechou em queda de 2,15%, a US$ 3.114,21; e a Apple caiu 2,32, a US$ 128,98.”

Já o dono do aplicativo Telegram, que não tem finalidade comercial e não captura dados dos seus usuários, informou ao mundo que havia atingido a marca de 500 milhões de usuários, 25 milhões dos quais aderentes nos últimos dias. O Telegram passou a ser o segundo aplicativo de mensagens mais baixado no Brasil. O líder passou a ser o Signal, divulgado pelo empresário conservador Elon Musk, dono da Tesla e da Space X. O Whatsapp caiu para terceiro lugar no ranking, segundo dados da semana que passou. A migração em massa prossegue.

E o Whatsapp acusou o golpe e anunciou que adiou para 15 de maio a implantação de sua nova política de privacidade de dados que entraria em vigor dia 8 de fevereiro, banindo do app usuários que não aceitassem o compartilhamento de seus dados de navegação com o Facebook e com os clientes comerciais de Zuckerberg.

É nesse contexto que deve ser compreendido o Silence Day, como forma de protesto contra a censura nas mídias sociais. Segundo informa Leandro Ruschel em seu canal no YouTube, o dia do silêncio teve a adesão de 246 mil usuários de mídias sociais no Brasil.

Entre os proponentes do Silence Day no Brasil há um especialista em monitoramento de redes digitais, que utilizando técnicas de amostragem estimou o impacto da ação. Segundo informa Ruschel, 750 milhões de impressões (quantidade de vezes em que um anúncio é carregado no perfil pessoal de um usuário de mídia social) deixaram de acontecer em função da ausência nas redes das Big Techs dessa quantidade de usuários que saíram dessas redes tradicionais nesses dias.

Sem acesso aos dados financeiros dessas corporações de mídias sociais não é possível estimar a perda de faturamento provocada pela ação para avaliar o prejuízo que sofreram, mas certamente criou-se um precedente para que a repetição ampliada de movimentos desse tipo, que incentivam a migração para mídias alternativas, abale a receita e o lucro das empresas que praticam censura.

E é exatamente isso que propõem os criadores do Silence Day, que será convertido em um movimento chamado de Free Speech Friday (sexta-feira da liberdade de expressão, em livre tradução) que toda sexta-feira promoverá alguma ação de defesa da liberdade na internet.

Diante disso, a polêmica que se criou entre os conservadores brasileiros em torno do Silence Day perde o sentido. Ou entendemos que as corporações de mídia social que promovem censura na internet são parte do nosso problema e as atacamos em seu ponto fraco, ou continuaremos a depender do monopólio que elas representam e seremos os próximos cancelados.

Paulo Moura
Paulo Moura
dextrajornalismo@gmail.com
1 Comentário
  • Avatar
    Jackie Fraccaroli
    Postado em 13:55h, 17 janeiro Responder

    É isso aí – pesou no bolso, voltam atrás – aliás, como qq comerciante que se preze. Ótimo artigo, excelente análise.

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