PESQUISA DA VACINA OXFORD/ASTRAZENECA APRESENTA ERROS, INFORMA A AGÊNCIA REUTERS

A Agência de Notícias Reuters publicou em seu site, no dia 24/12, uma longa reportagem (original em inglês) revelando a ocorrência de erros técnicos na pesquisa para fabricação da vacina desenvolvida pelo Laboratório AstraZeneca em convênio com a Universidade de Oxford.

A descoberta foi feita após profundo trabalho de jornalismo investigativo sobre os documentos científicos do estudo, feito pelos jornalistas  

Os profissionais da Reuters debruçaram-se sobre centenas de páginas de registros de ensaios clínicos e entrevistas com cientistas e profissionais da indústria farmacêutica, e descobriram que os próprios pesquisadores de Oxford chamavam, em seus relatórios de pesquisa, de “erro de cálculo de potência”. A admissão desse erro consta de um dos documentos publicados pela revista científica The Lancet sob o título de “Plano de Análise Estatística” de Oxford e AstraZeneca, de 17/09/2020.

Segundo a equipe da Reuters, em 05/06/2020, para corrigir o erro, os pesquisadores da Universidade de Oxford adicionaram discretamente um novo grupo de voluntários à pesquisa sobre o teste clínico da vacina. A informação consta de em um documento registrado como confidencial.

O procedimento poderia parecer algo de menor consequência num estudo de larga escala, mas, segundo a Reuters “mascarava um erro que teria consequências potencialmente de longo alcance”, pois o erro original consistia do fato de que muitos voluntários testados haviam “recebido inadvertidamente apenas cerca de meia dose da vacina”. O novo grupo de voluntários receberia a dose correta na aparente expectativa de que fosse corrigido o erro original pela observação dos resultados desse novo grupo.

Inevitável relembrar que a pesquisa Oxford/AstraZeneca largou na frente na corrida dos laboratórios para encontrar a solução para a pandemia do Covid19, e que o governo britânico encontrava-se sob forte pressão da opinião pública em função da forma errática com que lidou com a epidemia, apresentando cerca de 65 mil mortes até meados de dezembro, e que o primeiro ministro Boris Johnson garantiu o fornecimento de 100 milhões de doses, contextualiza a Reuters.

Nesse contexto o governo brasileiro apostou suas fichas na vacina da Oxford, que, além de apresentar a pesquisa mais adiantada, prometia fornecer o imunizante a baixos custos (em torno de US$ 5,00 a dose) ao passo que os laboratórios concorrentes oferecem a vacina a um preço superior a US$ 10,00 a dose. A retórica que acompanhava as notícias sobre a pesquisa de Oxford dava conta de que os pesquisadores “produziriam até três bilhões de doses da vacina de baixo custo até o final do próximo ano, o suficiente para vacinar grande parte do mundo, incluindo muitos de seus habitantes mais pobres”, evidencia a matéria.

Segundo relata a reportagem, em 23/09/2020, os pesquisadores da Oxford/AstraZeneca divulgaram um resultado noticiado como positivo, mas que continha uma informação intrigante: “anunciaram que o regime de meia dose seguido de um reforço de dose completa parecia ser 90% eficaz na prevenção do COVID-19. Duas doses completas marcaram 62%.” Na oportunidade os pesquisadores disseram não terem certeza do motivo pelo qual o regime de meia dose era muito mais eficaz do que o da dose completa.

Quem acompanha a trajetória da pesquisa do Instituto Butantan em torno do desenvolvimento da Coronavac, em associação com o laboratório chinês Sinovac, encontrará incrível coincidência de retórica e comportamentos dos representantes do instituto, se comparada à retórica dos envolvidos na pesquisa britânica, notadamente agora que veio a público a informação de que a vacina chinesa esgrimida perlo governador Doria (SP), como a grande solução para a pandemia no Brasil, apresenta eficácia de apenas 50%.

No dia 11/04/2020, Sarah Gilbert, uma das principais pesquisadoras da vacina em Oxford, disse numa entrevista ao jornal The Times, 12 dias antes de um teste clínico testar a segurança da vacina, e portanto sem dados objetivos para sustentar seu discurso, “ter 80% de certeza de que sua equipe seria capaz de produzir uma vacina bem sucedida, possivelmente já em setembro”.

Sem responder a questão da discrepância entre os resultados da aplicação da primeira e da segunda dosagem os pesquisadores de Oxford se limitaram a declarar que os estudos foram “conduzidos sob os rigorosos requisitos nacionais, éticos e regulatórios”. E que “todos os protocolos de julgamento e alterações de julgamento foram sujeitos à revisão e aprovação das autoridades competentes. Todos os dados de segurança foram revisados regularmente” (pelos reguladores).

Questionamentos aos pesquisadores de Oxford foram feitos pelo próprio laboratório AstraZeneca, patrocinador da pesquisa. Diante disso, a Agência Reguladora de Medicamentos de Saúde (MHRA), recusou-se a responder perguntas sobre a questão da contradição envolvendo a questão da dosagem, dizendo: “Nossa revisão está em andamento, então essas informações são atualmente comercialmente confidenciais”.

A reportagem prossegue as explicações sobre a possível origem do erro dos pesquisadores de Oxford tomando como fontes pesquisadores do laboratório IRBM/Advent da Itália. O relato da cronologia dos acontecimentos revela que os procedimentos dos pesquisadores de Oxford foram autorizados pelo órgão regulador britânico, o que explica a recusa dos representantes do órgão em responder aos questionamentos.

Mene Pangalos, vice-presidente executiva da AstraZeneca, afirmou que houve erro na medição da dose por parte dos pesquisadores: “Acabou sendo metade da dose”, disse ele à Reuters. O erro foi batizado de “serendipity”, em função de a análise de dados posteriormente indicar que “a meia dose, seguida de uma dose completa, chamada booster shot, era muito mais eficaz do que duas doses completas”.

A laboratório italiano IRBM/Advent informou à Reuters não haver problema com a fabricação do lote enviado aos pesquisadores de Oxford para os testes e que comunicou por escrito que o acidente de medição foi “o resultado de uma mudança no método de teste” usada para confirmar a potência da dose “uma vez que o material foi enviado”.

Segundo documentos publicados no The Lancet e investigados pelos jornalistas da Reuters, o erro foi dos pesquisadores de Oxford. Esse documentos não fornecem detalhes das tratativas entre Oxford e o órgão regulador, mas revelam que os autores do estudo buscaram aprovação para mudar seu método de medição para o usado pelos italianos, e para descobrir como proceder para corrigir o erro decorrente da aplicação da dose errada nos participantes iniciais do estudo. Dessa consulta decorreu a adição de um novo grupo de voluntários à pesquisa tal como descrita no início dessa matéria.

No transcorrer dos acontecimentos, os pronunciamentos de Oxford e do laboratório AstraZeneca em momento algum tornam pública essa informação com a clareza e a transparência requeridas por uma assunto tão sensível à saúde humana de multidões, chegando a negar que houvesse erro, conforme citações reproduzidas pela reportagem a Reuters, cujos jornalistas encerram a matéria evidenciando a contradição entre a retórica dos envolvidos e os requisitos do rigor científico.

Saiba mais: LABORATÓRIO ASTRAZENECA ANUNCIA REMÉDIO QUE TRATA E EVITA COVID19

Cabe registrar a coincidência de o laboratório AstraZeneca divulgar, simultaneamente à reportagem da Reuters, a notícia de que estaria desenvolvendo um novo medicamento para prevenir e tratar o Covid19.

 

 

Paulo Moura
Paulo Moura
dextrajornalismo@gmail.com
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